No último dia 12 morreu o Xico Stockinger, escultor austríaco naturalizado brasileiro, que morava e trabalhava em Porto Alegre. Já estava velhinho, o Xico. Oitenta e nove anos, diabético, várias pontes de safena. Mas ainda produzia ativamente.
Eu vi uma mostra grande dele em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer, em 2006. Também vi alguma coisa dele em Porto Alegre, a minha preferida é a estátua do Drummond e do Mário Quintana, na Praça da Alfândega.
O cara era foda, mas qual não foi minha surpresa ao ler, na Zero Hora, uma declaração dele dizendo que nunca ficava satisfeito com suas esculturas, com raríssimas exceções. Empolgado mesmo, não tinha ficado com nenhuma. Perfeccionista ao extremo, o Xico, hein?
Primeiro fiquei com pena dele ter morrido sem se entusiasmar com nenhuma de suas belas obras. Depois percebi que, na verdade, foi isso que o impulsionou a trabalhar sempre, cada vez mais, até o fim da vida. O perfeccionista de verdade nunca atinge a perfeição, ele vive da busca. O Xico, além de escultor, foi meteorologista, diagramador, aviador. Era meio botânico, descobriu duas espécies de cactus. Os perfeccionistas são inquietos.
E sabe, me identifico com o Xico. Sou perfeccionista também, o que provavelmente ajudou a me afastar da primeira faculdade que escolhi, a de Arquitetura. Me prendia demais nos detalhes, o que prejudicava minha visão do todo e me deixava meio neurótica, achando que nunca conseguiria terminar um projeto e que ficaria trancafiada num escritório projetando detalhes a vida inteira.
Porém, vejam só como são as coisas, é exatamente esse meu defeito que talvez tenha me levado a fazer medicina. Perfeccionistas salvam vidas. São cuidadosos. São exigentes. São chatos até, mas enfim, salvam vidas.
O Xico salvou vidas. Senão curou patologias, curou o tédio.
